Há duas semanas, Denis Souza saiu de casa e alugou uma quitinete. Ao retornar para sua residência, Sônia Serrão fica pensando se foi contaminada. Johny Ramin trabalha com medo de contrair o vírus. Esses três profissionais de saúde, que atuam em Belém, estão na linha de frente no enfrentamento ao novo coronavírus. E, diariamente, sofrem os medos e as angústias de quem tem que cuidar da vida dos pacientes e, também, proteger a si próprio e aos seus familiares.

Denis Souza é técnico em radiologia e trabalha em um hospital particular. “Trabalho em um hospital particular há 12 anos.  Na linha de frente no enfrentamento ao coronavírus. A gente faz a tomografia. É muito difícil. A gente trabalha com medo”, disse. Ele contou que os profissionais de segurança têm os equipamentos de proteção individual. “Tudo certo, não falta”, afirmou.

“São duas alas lá do CTI. Cheias, lotadas. A gente trabalha com medo. Eu tive que me afastar da minha família, da minha filha, da minha esposa. E, também, dos meus sogros, que são pessoas idosas e do grupo de risco. Eu, com medo, me afastei da minha família”, acrescentou. Denis considera essa situação muito “complicada. A gente se protege, faz a higienização. Faz as coisas tudo certo. O hospital está dando apoio, todo o suporte que a gente tem que ter”.

Ele disse que, atualmente, e ao contrário de antes, pouco gente entra no hospital. Esse acesso, agora, é organizado. Ele observou que, onde trabalha, há médicos e técnicos de enfermagem com suspeita da covid-19. “Mas estão sendo afastados, estão se tratando, se medicando, tudo certo”, disse. Denis contou que se mudou há duas semanas. “Coisa ruim, aperto no coração, saudade da família. Só vendo por vídeo chamada. É complicado, né¿ Se afastar das pessoas que a gente ama, não sabe o dia que a gente vai voltar. Eu não podia botar em risco elas e, ao mesmo tempo, tenho que ajudar outras pessoas. Por isso, decidi me afastar da minha família”.

Ele acrescentou: “E a gente, ali, trabalhando fazendo exames, tomografias, o medo é muito grande. São 20 ou 30 tomografias por noite. A maioria, pela imagem, é positiva. Poucas não estão infectadas. Eu estou ali porque gosto, amo  o que faço, gosto de ajudar o próximo”.

A aflição está no olhar de cada um, diz enfermeiro

Johny Ramin, 30 anos,  é enfermeiro de UTI de um hospital  filantrópico de Belém.  Trabalha 12 por 36 horas.  “Antes nossa UTI era apenas para  pacientes pós-cirúrgico, mas as  cirurgias eletivas começaram a ficar em segundo plano, ser canceladas, e virou uti – covid  com paciente graves, com suspeita ou caso confirmado de  covid. Meu plantão começa às 19 horas  e termina às 7 da manhã do dia seguinte”, disse. Johny Ramin chega no hospital às 18h15, para poder pegar os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) dos técnicos de  enfermagem de sua equipe. “Graças a Deus, até o momento o hospital está dando todo suporte de  EPI’s”, afirmou. 

“Chego, me paramento e recebo o plantão. Quando a minha  equipe está completa, faço uma breve  reunião de como será possivelmente o plantão, quais pacientes vamos ter que realizar banho no leito e quais vamos ‘pronar’ (colocar de tórax virado para o colchão. Isso faz  com que o pulmão trabalhe melhor; isso melhora a respiração do paciente)”, explicou.

Segundo ele, a aflição da equipe é vista no olhar de cada um e em cada procedimento realizado. “Sempre conversamos sobre a situação que estamos vivendo. E o medo de contrair o vírus”, contou. “Ouço relatos diariamente de  colegas de  profissão, que estão com o psicológico abalado, que não conseguem dormir direito atualmente. Outros que não conseguem lidar com a situação e acabam caindo em lágrimas ao saber que vai assumir – ou seja, ficar responsável pelo paciente  com a covid-19). Até mesmo pessoas da higienização (por causa do medo de contágio) se recusam a  limpar  o quarto de pacientes de covid”, disse Johny.

“Será que me contaminei?”, pergunta técnica de enfermagem

A técnica de enfermagem e enfermeira Sônia Serrão, 37 anos, 18 de profissão, trabalha no Hospital Pronto Socorro Municipal Humberto Maradei Pereira (PSM do Guamá). “Acredito que o pensamento de todos que trabalham na rede pública e privada é apenas um: o de não se contaminar e de não contaminar as pessoas que a gente ama, os nossos familiares”, disse.  “Todos os dias, quando eu vou trabalhar e quando retorno (pra casa), eu fico pensando. Será que me contaminei? Será que contaminei alguém da minha família¿ Isso acaba mexendo com o nosso psicológico. Graças a Deus, não tive febre e nenhum problema respiratório. Estou bem”, afirmou.

E acrescentou: “Mas a gente observa que tem amigos de trabalho que estão se afastando. São enfermeiros, técnicos, médicos, fisioterapeutas, agentes de serviços gerais – todos aqueles que trabalham na linha de frente e se contaminaram. E acaba que quem permanece no serviço fica com uma sobrecarga de trabalho muito grande, e isso é preocupante. A gente vê que a procura está sendo muito grande. Muitas pessoas chegam à gente com suspeita de covid, outras confirmadas. E a gente já está vendo um colapso na saúde, pública e privada, porque não dá para atender todo mundo. E um dos pedidos que a gente mais bate na tecla é que a quantidade de Equipamento de Proteção Individual seja aumentada para os profissionais da área da saúde, que precisam de EPIs adequados para atender a população. A gente sabe que o problema da falta de EPIs não é estadual. É nacional e mundial”.

Sônia Serrão disse que os profissionais de saúde pedem à população que entenda que eles estão dando “o nosso máximo. A gente já está ali com o nosso psicológico afetado. E sofrer ameaças, sofrer agressões verbais e físicas só vai piorar a situação de quem está ali trabalhando. A gente precisa também que as pessoas tenham conscientização do isolamento social, do uso de máscara, do uso do álcool em gel, de lavar as mãos com água e sabão”. E acrescentou: “Precisamos que as pessoas se reeduquem. Que possam compreender que não depende somente da gente, mas de todo mundo. Estamos no meio de uma pandemia e todos precisam se ajudar. Não falo somente como enfermeira, mas como ser humano. Precisamos achatar essa curva (de casos) para que o estrago não seja maior. Ser houver uma certa quantidade de pessoa doentes ao mesmo tempo como é que a gente vai conseguir atender todo mundo? É humanamente impossível. Espero que tudo isso acabe logo, mas espero que todos respeitem os profissionais da área de saúde. A gente está ali para ajudá-los e não merecemos agressões físicas e verbais, por estar passando por um momento tão delicado e por o sistema estar encharcado. Fique em casa e só saía se for realmente necessário”.