Quem paga aluguel foi surpreendido ao longo do ano passado com pedidos de reajuste de mais de 20% no valor mensal. A inflação oficial calculada pelo governo federal e divulgada nesta semana foi de 4,52% em 2020. O problema na diferença entre os dois percentuais é que enquanto o primeiro aumenta o custo de moradia, o segundo é o mais utilizado em reajustes salariais. Dessa forma, a diferença entre os dois é dinheiro a menos para o locatário.

O índice que tradicionalmente reajusta aluguéis é o Índice Geral de Preços (IGP), calculado desde 1947 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Já as negociações salariais costumam ser balizadas pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), criado em 1979 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Há muitos outros além desses dois. O IBGE também calcula o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Já a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da Universidade de São Paulo (USP) tem o Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) tem o Índice de Custo de Vida (ICV).

O professor de Economia na Universidade de Brasília (UnB) Evilásio Salvador explica que há dois tipos de indicadores de inflação diferentes. Um deles, que inclui o IPCA e o INPC, busca “calcular o custo de vida, aquilo que o consumidor na ponta está vivenciando”. O outro, que tem como seu expoente no Brasil o IGP, se propõe a ser um índice mais global da economia e parte de outros indicadores, com uma ponderação de preços no atacado.

Todo indicador da inflação tem a mesma base: uma cesta de produtos é definida e seus preços são medidos periodicamente. A mudança calculada entre janeiro e dezembro é a inflação do ano. A semelhança para por aí. Os diferentes objetivos de cada índice influenciam na composição da cesta – que produtos têm seus preços medidos – e no peso que o preço do produto tem no resultado final.

Outro ponto de grande importância é onde os preços são medidos. Por vontade ou necessidade, cada indicador tem uma abrangência geográfica diferente. “Somos um país continental e não temos índice nacional de inflação e de desemprego”, apontou Salvador.

Isso influencia porque os preços não sobem da mesma maneira no Distrito Federal e no Acre. Tudo isso leva a números diferentes para cada indicador. 

O indicador oficial para medir o aumento de preços no Brasil é o IPCA. Ele é utilizado pelo Banco Central para definir a meta de inflação no ano. Ele busca medir os preços dos produtos comprados por “famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte, residentes nas regiões metropolitanas de Belém (PA), Fortaleza (CE), Recife (PE), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), além do Distrito Federal e dos municípios de Goiânia (GO), Campo Grande (MS), Rio Branco (AC), São Luís (MA) e Aracaju (SE)”.

Já o INPC foca nas famílias com renda mensal de 1 a 5 salários mínimos. “Esses grupos são mais sensíveis às variações de preços, pois tendem a gastar todo o seu rendimento em itens básicos, como alimentação, medicamentos, transporte etc”, explicou o IBGE. Por conta disso, é o INPC que tem sido utilizado pelo governo federal para reajustar o salário mínimo.

Antes de 1979, quando os dois indicadores surgirem, a inflação era medida por outros indicadores. O mais importante que ainda é calculado até hoje é o IGP, da FGV, criado em 1947. A maior antiguidade do índice explica porque ele é utilizado em reajustes de aluguel.

“Com a introdução da correção monetária no país, em 1964, este índice passou a ser bastante usado na correção de contratos, especialmente obras públicas”, explicaram Marcos Souza e Frida Eidelman no artigo “Alguns Índices da Inflação Brasileira”. O IGP é composto por três sub índices. Um mede os preços no atacado, o outro para o consumidor final e um terceiro no setor de construção.

Uma outra instituição de ensino também calcula um indicador tradicional desde 1939, o IPC-Fipe. Ele foca nas famílias com renda entre um e dez salários mínimos e os preços são medidos apenas na cidade de São Paulo. Até hoje ele é utilizado como indexador de contratos firmados pela prefeitura da maior cidade do país.

Por fim, o Dieese calcula o ICV, que também mede o custo de vida em São Paulo para famílias com renda entre um e 30 salários mínimos. Realizada desde 1959, ele teve a coleta interrompida durante a pandemia e “não será retomado quando a situação se normalizar, pois, a entidade fará um intervalo para atualizar a pesquisa, a fim de torná-la ainda mais adequada aos hábitos de consumo das famílias paulistanas”, explicou o Dieese.