A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que a pandemia do coronavírus é a crise mais desafiadora que o mundo enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial. O alerta foi lançado pelo secretário-geral Antonio Gutierres. No início do mês, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, apresentou aos parlamentares a Proposta de Emenda à Constituição 10/20, chamada de PEC do Orçamento de Guerra, que foi aprovada com 423 votos a favor e apenas um contra no dia 3. Apesar de já bastante utilizada, no entanto, a comparação do momento atual com a última grande guerra mundial, para o economista e professor João Tertuliano de Almeida Lins Neto, “carece de coerência”.

Comparar os dois contextos, de acordo com o pesquisador, é omitir particularidades específicas de cada um dos períodos, com o acréscimo de que um deles ainda está em curso. Se ela (a comparação) cabe como força de expressão para denotar a abrangência mundial desta pandemia, deixa de lado o ineditismo e a rapidez marcantes do coronavírus que, sem que tenha atingido a sua plenitude, em poucos meses contaminou mais de 1 milhão de pessoas, em diversas partes do mundo, inclusive e, principalmente, nos países mais desenvolvidos”, afirma.

Outro aspecto omitido, segundo João Tertuliano, é o aspecto indefinido e imprevisível do “inimigo” atual e os diferentes graus das consequências à economia do Brasil. “Examinando-se o caso brasileiro, a história revela que os traumáticos  impactos sociais, políticos e econômicos, vivenciados pela sociedade brasileira durante e após o término do conflito, foram menos danosos do que já se vivencia hoje e,  se vivenciará futuramente,  após a superação dessa pandemia, seguida de um mar de incertezas e de uma inevitável  crise econômica”, explica.

Se depois da Segunda Guerra Mundial o Brasil ainda dispôs de reservas de divisas, “incompetentemente usadas pelo Governo Dutra”, segundo o economista. “Ao término desta pandemia não existe a menor dúvida de que a economia brasileira levará várias décadas para recuperar suas contas públicas e conter a inevitável recessão, hoje já bastante acentuadas. Há estudos econômicos prevendo uma queda de até 4% do PIB (Produto Interno Bruto), pós crise”, anuncia ainda o estudioso.

Os impactos econômicos do coronavírus para o Pará deverão ser ainda mais sérios, se comparados com a guerra, mas possuem pontos semelhantes ao passado, como os danos sociais que podem causar. Outro alerta é para a continuidade da condição subdesenvolvida do Estado. “Certamente, (o Pará) não conseguirá, após o vencimento da pandemia, superar em pouco tempo a predominante situação de fornecedor de energia e de matérias primas. Seus gestores, políticos, empreendedores e a sociedade civil paraense devem, ainda, ficar atentos para que as populações mais pobres e desassistidas que, certamente, sairão debilitadas da crise do coronavírus, não venham a sofrer ataques de outras doenças – malária, tifo, verminoses – como ocorreu no pós guerra com os esquecidos mais de 40 mil ‘Soldados da Borracha’ que, por falta de assistência e amparo, morreram de malária e outras doenças tropicais”, destaca.

Orçamento de Guerra

O economista Marcus Holanda, conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon PA/PA), explica que a intenção da PEC 10/20 é criar um regime financeiro extraordinário de contratações para os governos federal, estaduais e municipais “para facilitar a execução do orçamento relacionado aos gastos com equipamentos e obras de prevenção ao coronavírus”. “A ideia é criar prerrogativas para que não ocorram problemas jurídicos e os gestores não fiquem sujeitos a contratempos devido aos gastos e dívidas extras”, informa o conselheiro.

O economista avalia que a medida é necessária devido à excepcionalidade do momento vivido pelo país, com uma pandemia nunca antes vista. “A verdade é que estamos vivendo uma crise de saúde pública sem precedentes na história da humanidade. E, infelizmente, não temos prazo de final. Certamente, medidas econômicas precisarão ser tomadas com urgência, como já estamos vendo. As informações por parte do governo estão mudando a cada momento”, afirmou.

A proposta ainda será analisada pelo Senado Federal, mas segue em discussão pelos parlamentares.

Fonte: O Liberal