Historicamente vítimas de preconceito, discriminação e as mais variadas formas de violência, as mulheres prostitutas enfrentam, agora, mais uma dificuldade: o novo coronavírus. “Isso nos afetou profundamente. É uma questão de calamidade pública. Uma situação muito difícil”, disse Lourdes Barreto, fundadora e coordenadora  do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (Gempac), cuja sede é em Belém. E o vírus prejudica principalmente as trabalhadoras do sexo com idade mais avançada, pois as pessoas idosas fazem parte do grupo de risco da doença covid-19. “Pegou todo mundo de surpresa. Muitas estão desesperadas, mas isso no mundo inteiro”, afirmou Lourdes, de quase 80 anos, dos quais há mais de 30 na luta em defesa dos direitos das mulheres prostitutas.

A coordenadora do Gempac disse que o novo coronavírus está afetando as pessoas mais humildes. “As mulheres trabalhadoras sexuais, que trabalham com seu corpo, com o beijo”, afirmou. Ela calcula que, somente no centro comercial de Belém, há entre 600 e 700 trabalhadoras sexuais. Elas ficam no chamado “quadrilátero do amor”, uma classificação que, disse a coordenadora, existe desde a década de 40. Esse quadrilátero engloba as ruas General Gurjão, Padre Prudência, Carlos Gomes, Manoel Barata, entre outras áreas. Mas também há trabalhadoras do sexo em outras regiões de Belém, como em  São Brás, por exemplo, Entroncamento, Ananindeua, Marituba, além de bares e postos de gasolina.  “Elas se espalharam por vários lugares”, disse.

Há muitas mulheres prostitutas idosas e que ainda não conseguiram benefício social e nem contribuíram com a Previdência Social. “Não podemos pensar em economia nesse momento, mas em cuidar da saúde. Precisamos de apoio”, disse. Lourdes disse que o Gempac está fazendo um trabalho de base para que as mulheres prostitutas fiquem em casa. Mas, aí, reside um grande desafio, pois elas precisam se alimentar e o sustento vem do trabalho delas. A Organização Mundial da Saúde recomenda o isolamento social e que se mantenha pelo menos um metro de distância de pessoas que apresentam tosse ou espirros constantes.

 “Como mandar ficar em casa se não elas têm o que comer?”, questionou. Ela disse que a entidade está em um trabalho articulado e conjunto com a Defensoria Pública do Estado, a Ouvidoria do Estado e a Fundação Papa João XXIII ( Funpapa), fazendo uma campanha de arrecadação de alimentos para ajudar as mulheres prostitutas. A ideia, nesse primeiro momento, é doar esses mantimentos para um grupo de 100 mulheres, as mais vulneráveis. “A Juliana, da Defensoria, a doutora Eliana, da Ouvidoria, e a Funpapa estão nos ajudando”, disse.

É um trabalho como outro qualquer, diz Lourdes

Lourdes Barreto disse que as doações não serão entregues na sede do Gempac, que fica no bairro Campina e está fechada. “Uma amiga vai receber a doação e entregar individualmente para elas”, disse. Ela contou que a sede do Gempac está fechada porque a entidade também atende e orienta outras categorias profissionais, e não apenas as mulheres prostitutas. Lourdes lembrou que, nas décadas de 40 e 50, essa área do centro comercial era muito movimentada. “Uma das áreas mais glamourosas da América Latina, por causa do ouro, tabaco, de mulheres de várias partes do mundo”, disse. E, assim, essa região ficou conhecida como “quadrilátero do amor”.

Lourdes disse que as zonas de prostituição sempre tiveram uma importância muito grande, que é por onde começam as cidades, atraindo um grande número de homens e surgindo, nessas áreas, muitas edificações, movimentando, ainda, a economia. Mas que, mesmo assim, essa sempre foi uma “população muito invisível para a sociedade”. Ela também fala de uma questão muito séria, que é as mulheres se assumirem como “putas. Poucas têm coragem, como eu, e algumas outras. A sociedade precisa desconstruir isso, de ter a gente como pecadora. É um trabalho como outro qualquer”, afirmou. “Tem que desconstruir que somos vagabundas, que não fazemos nada na vida. A sociedade não sabe que elas existem. Elas sofrem preconceitos, pois trabalham com órgãos sexuais”, disse.

Gempac defende campanha em defesa das mulheres prostitutas

Lourdes lembrou que, nos anos 40, enfrentou o sarampo. Na década de 80, a AIDS. E sobreviveu a todas essas doenças. Hoje, também está tomando cuidados. Está em isolamento social. Usa máscara. Na hora em que atendeu ao telefone, explicou que estava indo buscar algo na porta de sua casa e que estava de máscara. Por isso, falava com dificuldade. Então, pediu para o repórter ligar minutos depois, quando poderia conversar com mais calma. Está em sua casa, em Ananindeua. Ela disse que o Gempac, fundado em 1990, é uma referência em Belém, mas também no Brasil na luta contra a Aids, na questão dos direitos sexuais, no combate à violência contra a mulher, criança e adolescente.

Também conselheira nacional dos Direitos da Mulher, cujo mandato termina em 2022, Lourdes faz um apelo às autoridades para olhem com carinho para as trabalhadoras sexuais e que o Estado crie benefícios para ajudar as mulheres prostitutas. Fundadora da Rede Brasileira de Prostituta, ela defende uma grande campanha em defesa das mulheres prostitutas, sobretudo nesse grave momento de pandemia. E, com bom humor, até sugere o slogan dessa mobilização: “Uma puta campanha em prol das prostitutas e contra o vírus”. Quem quiser ajudar o Gempac, e fazer doações pode falar com Lourdes Barreto, no número  (91) 82411869 (que também é WhatsApp).

“A gente se guarda em casa e vai comer o que?”, pergunta prostituta

“A gente tem que se resguardar em casa. Agora, pergunto: a gente se guarda em casa e vai comer o que?”. O questionamento é feito por Socorro Nascimento, trabalhadora do sexo  de 61 anos. “Com essa situação agora (o novo coronavírus), a gente pede socorro”, disse. Ela lembrou que estão fechadas as boates, algumas bem tradicionais em Belém, e casas noturnas onde elas trabalhavam antes. Socorro contou que as mulheres que trabalham na rua General Gurjão, no centro comercial, precisam, por exemplo, de álcool em gel, para que possam se proteger minimamente. “A gente não poder sair para atender cliente particular”, disse.

E acrescentou: “Não estamos conseguindo trabalhar normalmente”. Antes, ela começava a trabalhar 7h30, 8 horas em uma casa particular no centro comercial de Belém. E voltava para sua residência, dependendo do movimento de clientes, às 21 horas. “Agora, não tá tendo mais clientes como antes. Tem clientes velhinhos que, quando vão lá, querem logo fazer o ‘serviço’ para ir embora. Não tá tendo. Eles não podem ir, porque estão proibidos de sair na rua. Outros mais novos também estão restritos para sair”, afirmou.

Socorro continuou: “Toda hora a polícia passa lá. Não tem como trabalhar. Agora, não dá mais para ficar na rua, por causa do isolamento social, medida fundamental para evitar a propagação do vírus. Além do mais, disse, diminuiu a oferta dos ônibus urbanos circulando pela cidade Depois de tudo isso (novo coronavírus), ficou pior. Fecharam as casas noturnas. A gente liga (para o cliente), sai, mas tem que correr por causa da polícia, que está fechando todos esses estabelecimentos. Está sendo difícil a gente conseguir trabalhar em paz. E tem que voltar cedo para a casa, por causa dos ônibus, que estão poucos. A gente fica horas e horas esperando. A gente fica à mercê dessa situação”, lamentou. “Não sei mais o que eu faço. Fico sem saber o que fazer. Meu Deus, não tenho de onde tirar. Tenho deficiência na mão esquerda. Tenho 61 anos. Eu corro eu peço ajuda. Pelo socorro para mim e para as outras gatinhas”.

Viúvas há muitos anos, e sem ter sido amparada pela Providência Social, Socorro ajuda nas ações do Gempac, distribuindo preservativos em algumas casas onde trabalham as mulheres prostitutas, e também atua na prevenção às infecções sexualmente transmissíveis. Ela disse estar muito preocupada com as “meninas” que trabalham no centro comercial.

“Já estou um bom tempo nessa situação. Quando aparecia alguém para me amparar, eu parava de ir. Depois, voltava de novo. Em casa particular (onde ficam as mulheres prostitutas), trabalho há mais de 20 anos”, afirmou. Ela também pediu às autoridades que ajudem essas mulheres a se manter, já que o novo coronavírus prejudicou o trabalho das mulheres prostitutas.

Funpapa diz que 81 mulheres foram beneficiadas com cestas básicas

A Prefeitura de Belém, por meio da Funpapa, informou que 81 mulheres foram beneficiadas com as cestas básicas. A Funpapa destacou que desenvolve atividades de amparo e proteção de populações que vivem em situação de risco pessoal e social causados pela pobreza, abandono ou isolamento familiar. E atende casos de maus-tratos físicos, abuso e exploração sexual, uso de substâncias psicoativas, trabalho infantil, entre outras ações que violam os direitos do indivíduo.

Fonte: O Liberal