Icoaraci é um distrito que tem muito de turismo e comércio. Só que em tempos da pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-19), as rotinas estão sendo adaptadas na marra e no prejuízo. Por uma boa causa, claro, mas não deixa de ser difícil para quem atua nesses segmentos. Moradores das ilhas de Belém e do Marajó estão se virando como podem para conter a circulação da doença e se preservarem, sem deixar a economia parar.

No trapiche de Icoaraci, a movimentação de barcos não parece ter diminuído. Por outro lado, a circulação de passageiros e consumidores caiu. Algumas linhas, como de Cotijuba — uma das únicas de acesso —, tiveram ajustes frente à redução do número de usuários. Barqueiros dizem estar com cada vez menos gente para transportar e cada vez mais gastos com a higiene. É o caso dos trabalhadores da embarcação Vitória de Cotijuba, que vai do distrito até a ilha.

Na embarcação Vitória de Cotijuba, os passageiros só entram após terem as mãos higienizadas com álcool 70 líquido. Porque o gel segue em falta.
Na embarcação Vitória de Cotijuba, os passageiros só entram após terem as mãos higienizadas com álcool 70 líquido. Porque o gel segue em falta. (Thiago Gomes / O Liberal)

“Passamos de 70 para 30 passageiros, no máximo. Mas o pessoal está respeitando e só está saindo quem realmente precisa. É uma crise também econômica que todo o mundo está passando. A cada viagem, fazemos uma limpeza em todo o barco. E antes de entrar, borrifamos o álcool 70 nas mãos dos passageiros. Lá no porto, instalamos pias para o pessoal lavar as mãos”, conta Celito Júnior, um dos funcionário da Vitória de Cotijuba.

A linha Cotijuba-Icoaraci sai, por enquanto, de segunda a sexta, somente no horário de 5h45. A Icoaraci-Cotijuba fará o retorno, exclusivamente, às 18h30. Aos sábados e domingos, as viagens permanecerão no horário regular, às 5h45 e às 17h (Cotijuba-Icoaraci) e às 9h e 18h30 (Icoaraci-Cotijuba).

Celito também conta que se está difícil para os centros urbanos encontrar máscaras e álcool gel, não está mais fácil para o interior. O álcool líquido ainda tem estoque, mas é para demanda local apenas. As máscaras têm sido distribuídos pela unidade de saúde e de forma bem controlada. Para resguardar a segurança e esses produtos, só moradores têm conseguido ir. Os moradores até pedem alguma forma de fiscalização, para evitar a entrada de turistas menos conscientes.

O comandante José Carlos, da embarcação Rio Nageb, amarga os prejuízos de uma viagem Icoaraci - Marajó sem nem metade dos passageiros que costumava transportar
O comandante José Carlos, da embarcação Rio Nageb, amarga os prejuízos de uma viagem Icoaraci – Marajó sem nem metade dos passageiros que costumava transportar (Thiago Gomes / O Liberal)

José Carlos é comandante da embarcação Rio Negeb, que faz linha Icoaraci – Marajó. Antes eram de 60 a 80 passageiros. Agora são no máximo 20. Os trabalhadores estão de luvas e limpando tudo com álcool. Mas álcool gel e máscaras não encontraram. “Os passageiros estão preocupados e cobram limpeza. Fazemos e seguimos no prejuízo, porque as viagens não estão compensando. Ao menos o pessoal do Marajó tem respeitado e ficado em casa”, opina.

No Marajó, as dificuldades de encontrar algumas das formas básicas de proteção contra o novo coronavírus são na mesma intensidade que na Região Metropolitana de Belém. O pescador Manoel Souza, de 59 anos — quase na idade de tomar vacina contra a gripe —diz que não consegue encontrar nem álcool e nem máscaras. No entanto, tem visto, mesmo assim, os barqueiros fazerem de tudo para garantir a limpeza das embarcações. “Em todo o estado acho que estamos preocupados e fazendo nossa parte contra a doença”, disse.

O pescador Manoel Souza mora em Cachoeira do Arari e diz que a população do Marajó está se cuidando contra o novo coronavírus. As embarcações estão sendo higienizadas, garante. Mas faltam álcool 70 e máscaras.
O pescador Manoel Souza mora em Cachoeira do Arari e diz que a população do Marajó está se cuidando contra o novo coronavírus. As embarcações estão sendo higienizadas, garante. Mas faltam álcool 70 e máscaras. (Thiago Gomes / O Liberal)

A Feira do Artesanato do Paracuri, na orla de Icoaraci, assim como os quiosques, estava fechados. Os barraqueiros da praia do Cruzeiro também não trabalharam. Não há público. Os vendedores informais e feirantes estavam tristes e ociosos, além de expostos e vulneráveis a possíveis contaminações.Só o pessoal da venda de cocos ainda seguia acreditando. A disputa pelos poucos clientes nunca foi acirrada.

Na Feira do Artesanato, só quiosques fechados e a arte esquecida.
Na Feira do Artesanato, só quiosques fechados e a arte esquecida. (Thiago Gomes / O Liberal)

“Nunca vimos essa orla tão morta, desde a época da milícia. Nosso movimento caiu 50%. Álcool gel e máscara não tem em lugar nenhum, então nos preparamos para lavar as mãos sempre e já quase tirando o couro das mãos. Quem trabalhava era meu pai, há mais de 30 anos aqui. Como ele é idoso, mandamos ele descansar e viemos para cá. Mas só tá dando pra tirar o da broca mesmo e olhe lá”, contou Cristiano Campos, vendedor de coco da orla de Icoaraci.

Fonte: O Liberal