Marcos Valle tem uma mensagem do tempo nas mãos. Um álbum de temas inéditos feito com muitos parceiros letristas de várias frentes, uma inspiração instrumental retirada da aura de seu cultuado LP Previsão do Tempo, que gravou com o Azymuth, em 1973, e uma pertinente reflexão. Adotado como bossa-novista de grandeza da segunda geração do gênero por Tom Jobim e Carlos Lyra, autor de Samba de Verão, uma das canções brasileiras mais regravadas no exterior, o que ele recebe de uma plateia em fluxo constante de renovação, que garimpa seus discos nos sebos e nos sites de raridade, tem menos a ver com a própria bossa e mais com um pensamento musical livre para além de um formalismo que poderia tê-lo como refém. Aos 76 anos medidos por alguma régua que não passa pelo tempo, ele chega a Cinzento estabelecendo uma ponte sólida entre gerações.

Cinzento não é um disco instrumentalmente cinza, embora sua ideia seja falar um pouco dos dias gris atuais, tão diferentes do colorido que inspirou boa parte de sua vida. Enquanto produzia com Roberto Menescal um disco de Fernanda Takai na gravadora Deck Disc, O Tom da Takai, o produtor Rafael Ramos jogou a semente: “Por que não fazer um disco seu aqui?”. Um tempo depois, seduzido pela companhia de pianos Rhodes e caixas Leslie do estúdio, Valle, que tinha coincidentemente Previsão do Tempo sendo relançado em vinil, aceitou a proposta. Fazer um álbum que navegasse nas águas de Previsão, apostando em um material de instrumentação menor, com teclado, baixo e bateria ditando o groove. E o que viesse a mais seria luxo.

As melodias começaram a sair, e vieram logo quatro. As letras seriam pedidas para pessoas que já haviam declarado, de alguma forma, terem influências de Previsão do Tempo em suas carreiras, e aí vieram Moreno Veloso, Bem Gil, Alexandre Kassin, Domenico Lancelotti. De disco ativado, e mais melodias saindo, uma nova foi enviada a Zélia Duncan, que respondeu com uma letra no seguinte.

Outro tema em sete por oito, um tempo dos jazzistas, foi parar nas mãos de Jorge Vercillo, que mandou também a letra de Só Penso em Jazz no dia seguinte. Paulo Sérgio Valle, irmão de Marcos, presente em Previsão, entrou com Nada Existe, e Ronaldo Bastos veio com Posto 9, um instrumental do álbum Jet Samba, que ganhou letra. Emicida chegou com força, depois de uma ponte feita pelo produtor Marcus Preto, para letrar a melodia desdobrada que virou Reciclo e uma segunda, forte de discurso e flutuante no clima, chamada Cinzento, a que deu nome a tudo. Entraram ainda duas instrumentais, Sem Palavras, que remete ao medo da censura, ou da autocensura dos tempos sombrios, e a melancolia de Lamento no Rhodes.

O álbum partiu de um conceito comparativo que pode ter sido pensado também em seu projeto visual. Na capa de Previsão do Tempo, Marcos Valle aparece de corpo inteiro debaixo d’água em uma piscina com uma expressão de agonia, uma cena de afogamento, que remete ao sufoco que era em 1973 não poder dizer exatamente o que pensava. Em Cinzento, 47 anos depois, ele aparece saindo de um saco plástico com expressão grave. Os motivos, diz, são os mesmos, ainda que em contextos diferentes.

Mas o disco não se torna uma artilharia verbal nem nos momentos em que sugeriria algo mais pesado. As letras de Emicida, como são as de seu disco mais recente, AmarElo, em que Valle aparece tocando teclado, contornam o enfrentamento com figuras que suavizam o alvo. “Como testemunha, os cabelos e as unhas / As velhas mumunhas, e a risada dessa alcunha / Com a beleza das folhas do outono se vai / Como o tempo se esvai e eu tô como? / Num bye bye pro ontem, que contém o ônus / Duro aprendizado, que me deu mais tônus / E cada dia aqui é um bônus / Na dança, oxigênio e carbono / Menino, rapaz, com a paz de um bom sono / Jamais escapar da voraz fome de Cronos / Alma livre onde ninguém é colono / Bem guapa, escapa da farpa do abandono / Paciência pra vida não ser mono”.