A Central de Abastecimento do Pará (Ceasa-PA), localizada na Estrada do Murucutum, em Belém, aponta em estudo que 74% dos alimentos comercializados no entreposto são oriundos de fora do território paraense. Entre os Estado brasileiros, São Paulo e Bahia são os dois principais polos exportadores de alimentos ao Pará, com 26% e 10%, respectivamente, do total de produtos importados. Pernambuco (6%), Ceará (5%) e Minas Gerais (4%) também fazem parte do grupo que mais vende ao Pará.

Entre os produtores estrangeiros, dos países da América do Sul, Chile e Argentina são os que aparecem no ranking dos que exportam para o Pará, com 4% e 3%. De Europa e América do Norte, Estados Unidos, Espanha e Portugal foram responsáveis, cada um, por 1%.

A produção dos agricultores de São Paulo participa do estoque da Ceasa com itens como abacate, abóbora, acelga, alface, alho, ameixa, azeitona, batata, beterraba, caju, caqui, cebola, chuchu e cenoura. Já a Bahia, que fica em segundo lugar no levantamento, vende para o mercado paraense produtos como uva, tomate, tangerina, repolho, pimentão, pepino, morango, melão, melancia, maracujá, manga, banana e limão. O Chile, a produção estrangeira com maior presença, vende alho, ameixa, amêndoa, castanha portuguesa, cereja, damasco, kiwi, lichia, maçã, pera e pêssego, por exemplo, entre outros produtos.

De acordo com o coordenador de abastecimento e comercialização da Ceasa, Antônio Fernando Palheta, o clima quente e úmido do Pará dificulta o plantio de certas culturas. “Mas já podemos produzir pimentão, tomate, chuchu, goiaba, repolho dentre outras, basta que a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) forneça sementes certificadas das culturas a serem implantadas no nosso estado. Tendo sementes, linha de crédito, assistência técnica adequada, com certeza os agricultores poderiam melhorar seus projetos de produção de hortaliças e frutícolas em nossa região”, declara.

Durante a manhã desta terça-feira (28), enquanto fazia o descarregamento de um caminhão cheio de caixas de banana, o carregador Amarildo Jesus da Costa afirma que, após 33 anos de profissão trabalhando na Ceasa, já consegue saber as épocas em que a central receberá produtos de determinados estados. “No caso da banana, recebemos agora principalmente de Pernambuco, do município de São Vicente, que foi de onde veio esse que estamos descarregamento. Mas durante o ano também recebemos bananas do Ceará e do Piauí, depende muito do período do ano e das safras”, explica. Para o trabalhador, o grande número de produtos que vêm de fora está relacionado à organização e planejamento local. “Na minha opinião, falta investimento”, demarca.

O feirante Aldecir Freitas Rodrigues, de 36 anos, que trabalha há 10 anos no Mercado do Ver-o-Peso, reclama que a dependência que o Pará tem de outros Estados para adquirir produtos como uva, maça e morango, é o principal motivo para que os preços fiquem mais caros do que deveriam. “É claro que o custo de transporte e armazenamento, por exemplo, além das pessoas que trabalham no processo de exportação, acabam sendo transferidos para o preço da fruta. Quando chega aqui na feira, acaba que ganhamos pouco na venda. No caso da maçã, quando estava vendendo, recebia apenas R$ 10 na caixa, se fosse calcular o que tinha gastado”, calcula.

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA), em nota, acredita que o grande número de produtos importados na Ceasa não é motivo para que o Pará seja acusado de não produzir alimentos. “O Pará produz muito, mas nem sempre se consegue escoar em um nível de abastecimento de todos os mercados possíveis. Ainda há desafios de logística (comunidades produtoras muito distantes de sede, com acesso rodoviário ou fluvial prejudicado), de tráfego e de organização social”, argumenta o órgão.

 A Emater afirma que a produção de banana, por exemplo, que há alguns anos era esparsa no Pará, “provocando a necessidade de importação do Maranhão”, existe atualmente em 40 municípios do Nordeste paraense, em cidades como Vigia e Santo Antônio do Tauá. “Recentemente o plantio de variedades diversas, resistentes à doença sigatoka negra, tem sido estimulado como política pública”, diz a Emater.

Como marca do trabalho que realiza, a Emater destaca o que chama de “cinturão verde”, na região metropolitana de Belém, construído “com crédito rural e atendimento especializado às famílias das periferias, que podem plantar em quintais produtivos para consumo próprio e comercialização do excedente”, detalha.

“Além disso, a Emater trabalha com hortas comunitárias nessas regiões periurbanas, valorizando o aspecto imobiliário e gerando trabalho e renda.  Outra linha de atuação é o preparo financeiro e científico para produtos cujo custo de produção é tão alto – seja pela necessidade de estrutura específica, seja pela necessidade de muito defensivo – que acaba desestimulando o agricultor familiar, que já carece de recursos. Pimentão e tomate, por exemplo, exigem investimento diferenciado, o que provoca a desistência das famílias. Com crédito rural e garantias de mercado, as famílias voltam a se interessar”, conclui.