O Morro da Providência, no centro do Rio de Janeiro, tem uma conexão histórica com a literatura. Há 180 anos, nascia aos arredores da primeira favela carioca o escritor negro Machado de Assis. Quase dois séculos depois, em 2008, o local receberia as gêmeas Eduarda e Helena – hoje conhecidas como Pretinhas Leitoras.

Em uma tentativa de ir na contramão da rotina de violência da capital fluminense, em 2017, aos nove anos, as meninas criaram um canal na internet para falar sobre livros. 

“Tinha muita violência no lugar que a gente morava, por isso não saíamos de casa. Um dia, quando o barulho dos tiros parou, falei com minha irmã Eduarda que a gente podia fazer alguma coisa para se divertir. Aí veio a ideia do canal”, conta Helena, de 11 anos.

Alunas da rede pública municipal de ensino e alfabetizadas aos sete anos, Eduarda e Helena começaram a ler por incentivo da mãe, Elen Ferreira. “Elas iniciaram a aproximação com os livros através de oferta direta, em casa, com livros apresentados por mim. Hoje elas recebem livros do Brasil inteiro, enviados por autores e autoras diversos que se identificam com a proposta [do canal]”, contou Elen. 

Na lista dos livros preferidos, as gêmeas guardam títulos como “Bucala: A pequena Princesa do Quilombo do Cabula”, de Davi Nunes, “A Democracia Pode ser Assim”, de Equipo Plantel, “Pretinha, Eu?”, de Júlio Emílio Braz e o “Quarto de Despejo”, obra de Carolina Maria de Jesus.

Indicadas na categoria Protagonismo Juvenil do prêmio Ubuntu, organizado por grupos culturais e entidades ligadas ao movimento artístico e negro, Eduarda e Helena dizem que o lugar mais divertido de estar é o que tem outras crianças para ler.

“A gente fez uma roda de leitura na Providência e foi muito divertido. Esse ano vamos em cinco outras comunidades para fazer a mesma coisa”, disse Eduarda.

As rodas de 2020 estão voltadas à formação literária infantil e contarão com oficinas de promoção à leitura mediadas por contadores de histórias, autores ou  promotores de escrita. 

Para integrar o clube de leitura, as meninas ainda contam com a irmã mais nova, Elisa, de 5 anos, e o padrasto, Igor Dourado. Segundo a mãe, Elen Ferreira, a rotina familiar mudou após a estreia do canal.

“O projeto foi criado por causa da dificuldade de ir e vir na favela, mas hoje se transforma em possibilidade de acesso à educação. O Pretinhas Leitoras trouxe uma mudança significativa para nossa rotina, já que passamos a perceber a necessidade de voltar a atenção para projetos que pudessem crescer a cultura e a educação onde morávamos”, disse Elen.

Igor, Elen, Cintia e as Pretinhas Leitoras
Igor, Elen, Cintia e as Pretinhas Leitoras
Divulgação

A mãe, professora e inspiração para as meninas, que querem seguir a mesma carreira, conta que as Pretinhas Leitoras recebem muitos livros e gostariam de compartilhar em uma biblioteca.

“A gente não tem espaço físico, mas a gente espera que a sociedade civil construa uma biblioteca na Providência. É um local que não tem nada, as crianças vivem presas dentro de casa”, ressaltou.

O Pretinhas Leitoras é uma incubadora do Coletivo “Entre o Céu e a Favela”, uma iniciativa de Cintia Sant’Anna, que visa preservar a cultura local, através de assistência educacional e oportunidades para jovens, artistas e empreendedores.

Fonte: R7.com