“Eu estou indignada, com uma expectativa e ansiedade tão grandes, que nem consigo dormir. É muita carga, são muitos problemas, e quando chega essa hora, que eu quero ouvir o meu nome no listão, ainda tenho que passar por essa angústia”. O relato é da estudante paraense Joseane Pantoja Maia, que aguarda, ansiosa, a divulgação dos listões da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade do Estado do Pará (Uepa), suspensos na segunda-feira (27), até que a questão dos dados inconsistentes divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) seja resolvida.

Joseane tem 38 anos, é Técnica em Enfermagem, e está tentando pela terceira vez ser aprovada no curso de Medicina em uma universidade pública paraense. De família humilde, filha de empregada doméstica, ela passou os últimos três anos se dedicando aos estudos. Para isso, precisa dividir seu tempo entre o cursinho municipal público que frequenta, o trabalho e a família. “Eu não vivo só pro estudo, tenho filho pra cuidar, ano passado a minha mãe adoeceu, não tem plano de saúde, então é essa correria todo dia”, conta.

As dores de cabeça com a atual edição do Enem começaram para Joseane logo no momento da divulgação do resultado. Ela tem certeza de que está entre os milhares de estudantes que foram prejudicados com erros nas correções dos gabaritos. “Eu sei que eu fui prejudicada na correção das provas de Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Linguagens. Não tenho dúvidas”, diz a estudante. Ela afirma que procurou contestar sua nota junto ao site do Inep, chegou a enviar um email, mas não obteve nenhuma resposta.

Mesmo assim, a esperança de conseguir a tão sonhada vaga em uma universidade pública não acabou. As semanas que se sucederam à divulgação do resultado do exame foram de muita expectativa e ansiedade. Joseane não consegue dormir direito há vários dias, pensando nos listões. E ela foi pega de surpresa na segunda-feira, quando praticamente todas as universidades públicas do Pará decidiram adiar a divulgação do resultado de seus respectivos processos seletivos até que o Ministério da Educação (MEC) resolva os problemas no Enem a nível federal.

Agora, Joseane precisa lidar com a angústia de aguardar a divulgação dos listões. Verifica os portais de notícias de 10 em 10 minutos, conversa com os professores e colegas todos os dias e não consegue se concentrar em nada que não seja o seu resultado. “Eu estou muito ansiosa, não consigo dormir. Já pensei até em tomar remédio. Não posso olhar pra lugar nenhum que eu só vejo o Enem. Eu só quero que isso acabe logo e eu saiba se eu passei ou não”, conclui a estudante.

Segundo a professora Sueanne Freitas, que dá aula de redação no cursinho Pré-Vestibular Municipal de Belém (PVMB), o sentimento de angústia vivido por Joseane é o mesmo sentido por milhares de estudantes que prestaram o Enem. “A expectativa da divulgação do listão, por si só, já é uma tensão muito grande pra eles. Com mais esse problema de inconsistência de notas do Sisu, eles ficaram ainda mais ansiosos. Somado a isso, ainda tem esse problema da suspensão dos listões”, explica a docente.

Para a professora, não existe outra saída a não ser esperar e tentar conter as expectativas. Muitos estudantes estão estressados, nervosos, ansiosos, e caso o resultado não saia em breve, a tendência é que essa aflição só cresça. “A gente consegue sentir essa aflição deles porque ainda existe uma esperança da nota ser alterada por conta dessa inconsistência. Alguns que tiveram um possível baixo desempenho em alguma área, ainda ficam naquela ansiedade de haver uma alteração dessa nota. Tudo isso se soma a essa tensão que eles tão vivendo”, finaliza.