Com 99 anos recém-completados, mas muita lucidez e animação, a aposentada Euety Neves, que mora no bairro de Nazaré, em Belém, tem uma história de vida bastante ligada ao carnaval da cidade. Desde a infância, ela criou gosto em participar dos tradicionais bailes e blocos de rua. Até hoje, mesmo com comprometimento quase total na visão e na audição, sobra empolgação para cantarolar marchinhas e dançar os ritmos mais variados. Para celebrar o aniversário dela no clima dessa festa popular, familiares e amigos vão lançar, neste domingo (26), a partir das 15h, pelas ruas de Nazaré, o bloco carnavalesco sem fins lucrativos “Eu E Ti – Tu E Eu”, que é um trocadilho por conta do inusitado nome ‘Euety’.

A ideia surgiu da neta mais velha dela, Ninon Rose (46), que busca prestar uma homenagem cercada de adereços e fantasias. “Minha avó adora carnaval e tem a característica de ser muito alegre. Em 2017, ela começou a perder a visão por conta de catarata e glaucoma. Está com 80% da visão comprometida. E para conseguir escutar, temos que falar bem alto no ouvido dela. Por isso resolvi fazer o bloco. É uma homenagem, já que o aniversário dela foi dia 10 de janeiro. Como o nome dela é Euety, que a mãe dela tirou de um romance que leu, conversei com um amigo publicitário e chegamos a ideia deste nome, que é um trocadilho”, contou Ninon.

A programação terá um trajeto curto, mas o objetivo é levar dona Euety em uma carro acompanhando os foliões. “Vai sair daqui de casa, na travessa 14 de Março, entre Gentil e Conselheiro. Vamos dar a volta pela 14 de Março, Nazaré, Alcindo Cacela, Gentil e voltar para casa com ela no carro. A casa já está toda decorada com máscaras e outros adereços. Vai ter banda de fanfarra, grupo de pagode, tecladista e um DJ, que é neto dela também”, comentou. “Temos até abadá, que ela vai usar. E a proposta é que seja o primeiro de muitos, porque vamos continuar com o bloco anualmente para eternizá-la no carnaval”, acrescentou. 

A filha caçula da vovó foliã, Eunice Monteiro (72), é a costureira oficial das fantasias carnavalescas. Ela conta que a mãe foi bastante vaidosa. “Cuidou do corpo com exercício e sempre gostou de andar maquiada para as festas. Também participava de concursos de miss de festa junina e ganhou muitos. Eu que costurei todas as fantasias dela. Mas, às vezes, não tinha como conseguir a roupa. Ela dizia que queria ir para o bloco mesmo assim”, disse Eunice, que se surpreende com a excelente memória da mãe. “Sabe a data do aniversário de todos da família. Sabe o nome de todos. Conta muitas histórias”.

Com três filhos, sete netos, seis bisnetos e uma família bastante divertida, dona Euety diz que herdou o gosto por carnaval do pai dela. “Comecei a dançar com 12 anos. Meu pai, que era estivador e filho de escravo, me levou para uma festa. Eu não sabia dançar, mas ele disse que eu aprenderia. Dancei um samba na festa. Aí começou essa vida com festinha de aniversário, participando de pastorinhas e do carnaval de rua. Arrumava namorado, que também entrava na brincadeira do carnaval”, lembrou. “Depois que casei, meu marido, que já é falecido, ia comigo para os desfiles do Rancho Não Posso me Amofiná. Sempre torci muito para o Rancho. Todo ano ia para o carnaval, só parei porque perdi a visão” lamentou.

Durante a entrevista, dona Euety fez questão de cantar um trecho da marchinha “Cachaça não é Água” e destacou que a fantasia preferida dela é a de espanhola, que ela guarda até hoje com muito zelo. “Não deixo ninguém dar minhas fantasias. Tenho muitas. São recordações, porque sempre gostei de me enfeitar. Fui duas vezes rainha do carnaval da Ambep [Associação de Mantenedores Beneficiários da Petros]. Fui madrinha do bloco Chulé do Pato, do Guamá. Gosto de cantar, sei várias marchinhas. E gosto de dançar até hoje. Danço todo tipo de música, até funk e carimbó”, contou às gargalhadas. 

A foliã de quase cem anos também deixou um recado para a nova geração que brinca o carnaval. Segundo ela, é necessário cuidado e educação. “O carnaval é muito bonito, mas para quem sabe brincar e aproveitar. Para quem não sabe, nem adianta. Eu brinquei muito e aproveitei muito. Mudou muita coisa nesses anos. Para os jovens, digo que aproveitem sendo pessoas educadas. Aproveitem a vida, porque é bela. Saibam brincar sem fazer besteira”, sugeriu. “Nessa homenagem que minha neta vai fazer com o bloco eu posso cantar, dançar. Para lembrar da mocidade”, concluiu.