O consumo do açaí é um hábito alimentar diário para muitos belenenses. Seja no almoço ou no jantar, a polpa da fruta é bastante apreciada acompanhada de farinha d´água, farinha de tapioca, charque, peixe frito, camarão e outros alimentos. Para atender essa demanda, lojas com batedores de açaí estão espalhadas por vários bairros da capital, com um fluxo de trabalho que começa desde a negociação com fornecedores das ilhas até a venda para viagem com destino a outros estados e até países.

No Açaí do Paulinho, no bairro do Jurunas, o ofício de batedor passou do pai, Paulo Martins, 43, para o filho, Felipe Martins, 24. A rotina começa por volta das 3h, na Feira do Açaí, no complexo do Ver-o-Peso, com a compra da matéria-prima, que vem de Ponta de Pedras, no Marajó. Essa etapa inclui gastos com carregador e frete. A venda abre por volta das 9h e são garantidas todas as técnicas de higienização recomendadas pelo Ministério da Saúde aos produtores artesanais.

“O primeiro passo é comprar um produto de qualidade. Chegando aqui, vai para a esteira para a limpeza, tirando talo e sujeira. Depois, vai para o tanque para a lavagem com o hipoclorito. Depois, passa para outro tanque para tirar o excesso de hipoclorito. E vai para a máquina de branqueamento para dar o choque de 80 graus. E segue para o tanque grande, onde fica de molho. E aí podemos processar na máquina para partir para a venda”, explicou Paulo. 

Os valores de venda variam entre R$ 10 e R$ 15, de acordo com a safra. Entre janeiro e julho, no período de entressafra, o preço fica mais alto diante da escassez do produto, que se dá muito em função das chuvas. Uma das alternativas é manter um terreno próprio para cultivo. “Temos terreno com açaizeiros no Marajó, onde trabalhamos com contrato de meio a meio com 17 famílias. Elas apanham um número de paneiros e a gente divide por igual. Tenho irmão que toma conta no negócio lá”, contou Paulo.

A experiência de Paulo com manuseio de açaí tem 30 anos, desde que ele morava no interior. O ponto de trabalho no Jurunas tem mais de 25 anos e está em planejamento para expansão. “Pretendemos montar outro ponto de venda, talvez no centro da cidade. Desde que reformei essa loja estamos crescendo e já vendemos para clientes que levam litros de açaí para outros estados. Também tem meu filho. Esse trabalho eu ensino para ele”, frisou.

Para Felipe, o aprendizado com o pai é promissor: “Comecei com ele há cerca de um ano. Às vezes, quando ele fica doente ou não pode ir até à feira, eu é que vou negociar para comprar ou para vender, porque também temos produção. O maior desafio que vejo é na hora colocar o açaí no saco, porque é preciso habilidade. Se não fizer certo, pode desperdiçar. Isso só se aprende com o tempo”.

Infância

Açaí na hora do almoço é tradição para a família do técnico de segurança do trabalho Joaquim Serrão, 55, que adquiriu o hábito ainda na infância. “Temos esse hábito de beber açaí desde quando morávamos no interior. Minha mãe e meu pai sempre tomavam todo dia. Quando chegamos em Belém, esse hábito se fortaleceu. Agora eu tomo cerca de duas vezes por semana”, contou.

Morador do Jurunas, Joaquim diz que prefere consumir o alimento na típica forma paraense. “Tem gente que toma com granola, banana, como sobremesa. Mas são novos hábitos praticados em outras regiões. Eu aprendi a tomar ao mesmo tempo em que como charque e peixe frito. E também tenho preferência por acrescentar farinha de tapioca. É o famoso feijão paraense”, destacou.

Fruta tem excelente valor nutricional 

O especialista em açaí Hervé Rogez, pesquisador e diretor do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a fruta tem excelente valor nutricional, se destaque na composição os lipídios, as fibras e os antioxidantes.

“Lipídios que têm o perfil de ácidos graxos igual ao do azeite de oliva, que é comumente é recomendado em dietas. Tem muitas fibras, que são recomendações diárias. E os antioxidantes, que o açaí tem oito vezes mais que o vinho tinto, são fundamentais para a saúde”, explicou o pesquisador. 

Ele diz que a quantidade recomendada é de meio litro por dia. “No mínimo, mas fracionando essa ingestão em quatro ou cinco doses diárias, porque as fibras e antioxidantes são recomendáveis em pequenas doses ao longo do dia, não em dose única. O tempo de meia vida dos compostos fenólicos é apenas de duas horas de meia vida no organismo. Se tomar meio litro de uma vez, em duas horas não tem mais a presença desses antioxidantes em nível sistêmico”, detalhou.

Segundo Hervé, o consumo do açaí não engorda se estiver desacompanhado de outros alimentos. “Não engorda mesmo que seja grosso. Tem lipídios que dão valor calórico, mas o que faz engordar, quando a gente calcula as recomendações diárias, é o alimento que é adicionado ao açaí. Farinha de mandioca ou farinha de tapioca. Nos dois casos, a farinha tem amido, que aumenta as calorias. Também a adição de açúcar, que faz o açaí ficar calórico”.