O restaurante Casa do Saulo sem dúvida tem um cardápio delicioso, dá maior visibilidade e reconhecimento, assim como valoriza os saberes e fazeres ribeirinhos. O premiado e gentilíssimo chef Saulo Jennings é um profissional que enche de orgulho o Pará. Mas o puxadinho que a Secretaria de Estado de Cultura – que tem a obrigação de zelar e salvaguardar a memória parauara – está fazendo na Casa das 11 Janelas é uma excrescência e um ataque à identidade cultural do Pará.
A edificação data da metade do século XVIII e foi construída pelo “senhor de engenho” Domingos da Costa Bacelar. Em 1768, vendida para Francisco Ataíde Teive, governador do Grão-Pará, após reformas feitas pelo célebre arquiteto italiano Antônio José Landi se tornou o “Hospital Real”, que funcionou até 1870. Depois, as instalações abrigaram o Corpo da Guarda e a Subsistência do Exército até o final do século XX. Durante a ditadura civil-militar a partir de 1964, foi utilizada pela 5ª Companhia da Guarda e era local de encarceramento de presos políticos, como os poetas João de Jesus Paes Loureiro e Ruy Barata, o livreiro Raimundo Jinkings, o jornalista Manoel Bulcão e o escritor Benedicto Monteiro.
O prédio de estilo neoclássico com dois pavimentos e onze aberturas simétricas em sua fachada principal tem varanda com vista para a Baía do Guajará, uma das mais belas paisagens de Belém. O local é um sítio arqueológico de 12 mil metros quadrados, escavado e peneirado até a profundidade de dois metros, onde foram encontradas cerca de oitenta mil peças de valor histórico, algumas anteriores ao descobrimento do Brasil, raridades que estão expostas atualmente nos dois museus que integram o complexo. Não pode e não deve ser descaracterizado, em hipótese alguma. Vale frisar que todo o conjunto arquitetônico é tombado como Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural tanto pelo município quanto pela União, além do Estado, que está a maltratar o bem sob sua guarda. O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Fundação Cultural do Município de Belém – Fumbel precisam se pronunciar com urgência, além do Ministério Público Federal e do Ministério Público do Estado do Pará, fiscais da lei que está sendo afrontada.
Em 2001, o ex-governador Almir Gabriel (1932-2013) celebrou convênio com o Exército Brasileiro e assumiu a Casa, os terrenos adjacentes e o Forte do Castelo, que foram ressignificados através do Projeto Feliz Lusitânia, idealizado e executado pelo arquiteto Paulo Chaves, então secretário de Estado de Cultura, que contemplou a Igreja de Santo Alexandre, o Museu de Arte Sacra, o Museu do Encontro (no Forte do Presépio) e o Museu do Círio (no Casario da Padre Champagnat), além da Casa das Onze Janelas, onde foi instalado o Museu de Arte Contemporânea e, como serviço de apoio, um restaurante-bar funcionando em horário estabelecido pela direção do museu e em consonância com o caráter museológico do local, em cujo entorno estão expostas esculturas.
Existem condições especiais para o conjunto patrimonial no Largo da Sé, berço de Belém do Pará.  Recentemente, aliás, uma estrutura semelhante foi vetada no reformado Bar do parque, na Praça da República, pelas mesmíssimas e justas razoes.
A memória histórica, artística e cultural parauara vem sendo apagada pelo descaso, que permite a ruína e a descaracterização das edificações e monumentos, pela falta de incentivo às manifestações espontâneas, pela ignorância de sua importância. Belém é linda e única, em sua localização geográfica privilegiada, identidade própria e marcos dos ciclos que viveu. Na reabertura oficial da Casa das 11 Janelas, o governador Helder Barbalho assim se pronunciou: “Estamos em um lugar concebido para convergir arte, história e suas vocações para a cultura, reportando às memórias de nossa região”. Não é possível que a própria Secult destrua uma obra de arte assinada por Landi justamente no lugar de fundação de Belém.
As fotos são pinçadas da página de Dulce Rosa Rocque, ativista social e editora dos blogs Laboratório de Democracia Urbana e Cidade Velha – Cidade Viva, a primeira a protestar contra a descaracterização.