O almoço oferecido pelo presidente Jair Bolsonaro a outros chefes de Estado do Mercosul nesta quinta-feira (5), no Rio Grande do Sul, tem tudo para ser indigesto. Isso porque alguns assuntos relacionados a países do bloco não podem sequer ser citados sob risco de estragar a refeição.

A questão mais tensa é a recente eleição do presidente da Argentina, Alberto Fernández. Bolsonaro fez campanha contra o candidato, ligado à família Kirchner, e anunciou que não irá à posse, dia 10 de dezembro.

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Na cúpula do Mercosul, estará ainda o atual presidente argentino, Mauricio Macri, derrotado na tentativa de reeleição.

Por causa dos temas incômodos e da ausência dos futuros líderes dos países — o Uruguai também será representado por um presidente que sai este ano o Uruguai: Tabaré Vázquez —, a cúpula, em Bento Gonçalves (RS), deve ter dificuldades para encaminhar assuntos importantes para o bloco. Um deles é a discussão sobre a redução da tarifa externa comum (TEC), atualmente em 35%.

Se por um lado o presidente eleito no Uruguai, Luis Lacalle Pou, tem posições similares ao Brasil na condução da política externa, por outro, a posição do novo governo argentino preocupa os especialistas pelo possível viés antiliberal.

Outro item que não obtém consenso no bloco é a situação política na Venezuela. Argentina, Brasil e Paraguai reconhecem como presidente do país Juan Guaidó, líder oposicionista do país. O Uruguai, por sua vez, considera Nicolás Maduro o chefe de Estado.

Acordo com o Paraguai

Bolsonaro afirmou que vai cobrar contratos assinados pelos países do bloco e disse que vai manter uma relação diplomática com a Argentina. Ele ainda disse que, durante o evento, poderá ser assinado um acordo automotivo com o Paraguai.

O setor automotivo não foi incluído nas regras comerciais do Mercosul. Por essa razão, os países que integram o bloco (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) estabeleceram acordos bilaterais para reduzir ou eliminar tarifas no setor. O Paraguai é o único entre os integrantes do Mercosul que ainda não mantém um acordo do tipo com o Brasil.

Se aprovado, o acordo automotivo pode ampliar as exportações de automóveis fabricados no Brasil para o Paraguai. O país vizinho também tende a se beneficiar, já que exporta peças e equipamentos que são usados na montagem de carros no Brasil.

Durante a Cúpula do Mercosul, além da assinatura de acordos, deverão ser adotadas declarações presidenciais sobre desenvolvimento sustentável, turismo e combate a ilícitos transnacionais e à corrupção. O evento marca também o fim da presidência pró-tempore do Brasil no bloco. Pelos próximos seis meses, o comando do Mercosul será do governo paraguaio.

*Com informações de Estadão Conteúdo, Reuters e Agência Brasil.